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Representações sociais de cura de pessoas atingidas por hanseníase multibacilar após a alta por cura no nordeste brasileiro

Publicado em 22 de junho de 2022.

A posição do pesquisador diante do problema de pesquisa prediz sobre as conclusões que serão geradas. Descartes (2006) propõe o exercício de, antes de ir a campo, procurar em si mesmo os caminhos que nos levam ao objeto de estudo. Ou seja, situar qual a perturbação com relação ao tema levantado, pois são estas inquietações que imprimem ao estudo suas particularidades. A possibilidade de analisar e duvidar, que é própria do homem, o torna capaz de buscar conhecimento sobre tudo o que existe, e o arcabouço agregado ao longo de sua vida o direciona às questões levantadas.

A partir disto, volto-me ao tema de pesquisa: “A vivência de cura em pessoas em pós-alta de hanseníase” e busco as inquietações que me levaram a ele. Algumas experiências me encaminharam para tomá-lo. Primero, o fato de ter crescido em uma pequena comunidade do Ceará, cercada por tradições culturais, onde as crenças e as repercussões significativas da doença oferecem impactos importantes sobre a rotina de todos no grupo. 

Desde cedo, observo o quanto cultura e tradições são influentes no processo saúde-doença.

O envolvimento, quando alguém da comunidade apresenta uma doença, é notável. Além disso, a busca por métodos alternativos de cura: rezadeiras, plantas medicinais e rituais eram são um caminho buscado para aliviar as dores.

Reporto-me a dois momentos específicos de contato com a Hanseníase que me fizeram escolhê-la como foco de pesquisa: a primeira experiência se deu durante a graduação, em visita ao Hospital Colônia do Carpina, que trata e abriga pessoas em tratamento ou em alta por cura de Hanseníase. Muitos, dos que encontrei, tinham recebido alta por cura, mas preferiam morar ali ou por não possuírem onde morar ou por terem perdido o total contato com familiares, permaneciam, então, como moradores do hospitalcolônia, e acabavam tendo que reconstruir suas vidas afastados de tudo o que tinham antes do diagnóstico. O segundo contato foi quando uma paciente com sequelas de hanseníase frequentando a Clínica de Fisioterapia onde trabalhei, contou-me toda a sua trajetória enquanto portadora da doença, o seu sofrimento e o preconceito agregado durante o percurso do tratamento, e após ele, destacando a complexidade das sequelas tanto físicas quanto psicossociais permanecentes, mesmo após ter recebido alta por cura. Percebi que mesmo hoje, com a Poliquimioterapia (PQT) interrompendo o ciclo de transmissão, e da divulgação na mídia, numa tentativa de naturalização da doença, os portadores ainda são isolados da sociedade, abandonados pela família e amigos. Mesmo após a alta, a doença provoca um estigma que os acompanha. Neste contexto, fui delineando o momento pós-alta em Hanseníase como tema de estudo por perceber o quanto a cultura e as representações sociais desta doença, em especial, influenciam na vida do portador.

O medo do desconhecido é o que faz o homem pesquisar, apontam Adorno e Horckeimer (1997). Na intenção de explicar tudo o que lhe cerca, o ser humano faz uso da fé e da ciência. Muitas vezes, estas duas categorias se mesclam, como é o caso do preconceito com a Hanseníase: doença vista como castigo divino em resposta a uma transgressão moral grave. Como a transmissão se faz de forma direta, por via respiratória, através do contato com uma pessoa doente, sem tratamento, o discurso biomédico de vertente bacteriológica do século XX agregado ao teológico colaborou para proporcionar sentido de periculosidade ao doente. O isolamento, no âmbito da bacteriologia, como forma de proteger as pessoas saudáveis e evitar a transmissão do bacilo originou-se do modelo medieval de conduta social associada à Lepra, percebida como forma de punição de Deus, para que os leprosos pagassem pelo pecado cometido. De um lado, no âmbito religioso, ele garante a justiça divina e, de outro, no âmbito científico, ele interrompe a perpetuação da doença. Segundo Adorno e Horckeimer (1997), o esclarecimento, é o processo segundo o qual há a libertação das explicações, chamadas pelos autores de míticas, considerando-se apenas as teorias que fazem uso da razão para explicar as indagações. Voltando ao tema de pesquisa e considerando o contexto da Hanseníase e o estigma a ela atrelado questiona-se: há total abandono do mítico nas relações que cercam a pessoa atingida pela doença?

Representações sociais de cura de pessoas atingidas por hanseníase multibacilar após a alta por cura no nordeste brasileiro

DOI: 10.22533/at.ed.114222206

ISBN: 978-65-258-0211-4

Palavras chave: 1. Hanseníase. 2. Saúde. I. Ribeiro, Mara Dayanne Alves. II. Ribeiro, Maria Dandara Alves. III. Lira, Geison Vasconcelos. IV. Título.

Ano: 2022

Autores

  • MARA DAYANNE
  • MARIA DANDARA ALVES RIBEIRO
  • GEISON VASCONCELOS LIRA
  • JEFFERSON CARLOS ARAUJO SILVA
  • LUAN NASCIMENTO SILVA
  • SABRYNNA BRITO OLIVEIRA