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Ciência política global: Perspectivas de estudos culturais e pós-colonialismo

Publicado em 21 de setebmro de 2021.

No século XXI as forças do capital já não estão viradas para conquistas territoriais como tem sido dito. Que fariam elas com zonas econômicas de terra queimada e populações supérfluas? 

KURZ, Robert. Poder mundial e dinheiro mundial: Crônicas do capitalismo em declínio. Rio de Janeiro: Conseqüência, 2015, p. 113.

 

Tal constatação não omite o prevalecer do processo de imperialismo no atual “campo”(1) histórico da modernidade, pelo contrário, enfatiza que sob a crise estrutural do capital, o que conhecíamos como zonas de influência nacionais, na qual os “impérios” buscavam ampliar as fontes de geração de riqueza e cadeia de valor, tornaram-se sinais de alerta para tentar minimizar as contradições presentes no desenvolvimento irracional da globalização do capital e das feições do Estado no capitalismo.

A política, neste contexto, exige uma crítica teórica que apreenda com a reconstrução histórica e possa ser formulada radicalmente. O compromisso com a emancipação, que não coaduna com o mito fáustico do Progresso e tampouco do crescimento econômico ilimitado, encontra na estatalidade e sua relação com as categorias-chave do moderno sistema produtor de mercadorias um espaço aberto para “escovar a história a contrapelo” (BENJAMIN, 2020) e propor um devir que suplante a dependência unilateral com os limites de viabilidade do radicalismo do mercado e do imperialismo da economia.

Esse é o objetivo primacial desta coletânea intitulada “Ciência Política global: perspectivas de estudos culturais e pós-colonialismo”. A diversidade é uma premissa inconteste neste volume, pois reúne em seus treze capítulos um leque interdisciplinar capaz de abordar criticamente os problemas estruturais sistêmicos e resgatar a relevância da dissociação do valor presente no tripé masculino, branco e ocidental que alimentam as contradições existentes e ampliam a condição de precariedade daquela parte da sociedade dos sem parte que lutam por direitos a ter direitos (RANCIÈRE, 2014).

Não obstante, os/as autores/ras confirmam a tese benjamineana de que todo documento de cultura é, em essência, um documento de barbárie, pois à luz da falta de autonomia da esfera pública e, por conseguinte, do primado da liberdade política (consoante Hannah Arendt), questões étnico-raciais, de gênero e territorialidade estão no âmago de um sistema no qual o nível civilizatório se apresenta com índices cada vez mais alarmantes de miséria, desemprego, violências sobrepostas (Cavalcanti, 2018), crises energéticas, ecológicas, educacionais e pandêmicas.

Cientes e conscientes da importância da divulgação científica, em especial nesses tempos obscuros em que a necropolítica tornou-se regra, encontramos na Atena uma editora comprometida com a divulgação, por meio de uma plataforma consolidada e confiável, dos contributos destes pesquisadores/investigadoras que acreditam que a busca pela compreensão dos fenômenos que nos cercam são o que distinguem os seres humanos de mercadorias.

 

Antonio Carlos da Silva

 

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de História. Edição Crítica. São Paulo: Alameda Editorial, 2020.

CAVALCANTI, Vanessa Ribeiro Simon. Violências sobrepostas: contextos, tendências e abordagens num cenário de mudanças. In: DIAS, Isabel (org.). Violência domêstica e de gênero: uma abordagem multidisciplinar. Lisboa: Pactor, 2018, pp. 97-121.

KURZ, Robert. A democracia devora os seus filhos. Rio de janeiro: Conseqüência, 2020.

KURZ, Robert. Poder mundial e dinheiro mundial: crônicas do capitalismo em declínio. Rio de Janeiro: Conseqüência, 2015. 

RANCIÈRE, Jacques. O ódio à democracia. São Paulo: Boitempo, 2014.

 

[1] Aqui entendido como o moderno sistema produtor de mercadorias, no qual o sujeito histórico é metamorfoseado em predicado consumidor em uma sociedade na qual o trabalho abstrato cria cotidianamente mais valor, mais dinheiro. Neste contexto, o indivíduo e a natureza são tratados como processos de utilização empresarial para valorização ou, parafraseando Kurz (2020), economização abstrata do mundo.

Ciência política global: Perspectivas de estudos culturais e pós-colonialismo

DOI: 10.22533/at.ed.747212009

ISBN: 978-65-5983-474-7

Palavras chave: 1. Ciência política. I. Silva, Antonio Carlos da (Organizador). II. Título.

Ano: 2021

Autores

  • ADELCIO MACHADO DOS SANTOS
  • ANTONIO CARLOS DA SILVA
  • ARILDE FRANCO ALVES
  • BRUNA FERRARI
  • CARLOS ROBERTO DA SILVEIRA
  • CLAYTON ROBERTO MESSIAS
  • CRISTIANE SILVA
  • CRISTIANO LUIS LENZI
  • CYNTHIA XAVIER CARVALHO
  • EDGARD MALAGODI
  • ELAINE CRISTINA DA SILVA ZANESCO
  • FABIO LANZA
  • GUSTAVO PEREZ PEREIRA ANDRADE
  • HAROLDO DA SILVA
  • HÉCTOR ZAMITIZ GAMBOA
  • LUIZ AUGUSTO SILVA VENTURA DO NASCIMENTO
  • MAURO JAVIER SAIZ
  • PATRICIA BRAGA
  • RAFAEL FARIAS
  • ROMUALDO THEOPHANES DE FRANÇA JÚNIOR
  • SOLANGE MARIA DE OLIVEIRA CRUZ